Category Archives: Books

Translation: Das Vantagens de Ser Bobo

This text is from a Brazilian writer named Clarice Lispector. YouTube is full of videos about her and her work, especially interviews! In the video, an actress reads it and, below, you can find the text version plus an English translation. I hope you enjoy it, it’s one of my favourites since high school! 😀

You can find one of her most famous interviews with English subtitles here.

Das Vantagens de Ser Bobo
The Advantages of Being a Fool

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando.”

The fool, not dealing with ambitions, has time to see, hear and touch the world. A fool can be seated almost motionless for two hours. If questioned why don’t you do something, responds: “I’m doing. I’m thinking.”

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saídas porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.

Being a fool sometimes offers a world of solutions because the smart ones only remember to figure things out by means of cunning, and the fool has originality, spontaneously comes the idea.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

The fool has the opportunity to see things that the smart ones do not see. The smart ones are always so observant of others’ smartness that they relax in front of the fool, who sees them as simple human people. The fool gains utility and wisdom to live. The fool never appears to have had a turn. However, many times, the fool is a Dostoevsky.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.

There are disadvantages, obviously. A fool, for example, relied on the word of a stranger concerning the purchase of a second-hand air conditioning: he said the device was new, practically unused because he moved to ‘Gávea’ where the weather is cool. The fool goes and buys the machine without seeing it. Result: it does not work. Called a technician, his opinion was that the device was so damaged that the repair would be extremely expensive: might as well buy another.

Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu.

But, on the other hand, the advantages of being a fool are good faith, lack of suspicious, and so be tranquil. While smart people do not sleep at night for fear of being outwitted. The smart wins with an ulcer in the stomach. The fool doesn’t even realize the winning.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: “Até tu, Brutus?”

Warning: do not mistake fools for stupid. Disadvantage: you can receive a stabbing from who you least expect. Is one of the sorrows the fool does not predict. Caesar ended up saying the famous phrase: “Even you, Brutus?”

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

A fool doesn’t complain. On the other hand, how exclaims!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

The fool, with all his goofiness, must all be in heaven. If Christ had been smart would not have died on the cross.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação, os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

The fool is always so nice that there are smart ones who pass themselves off as fools. Being a fool is an act of creativity and, as all creation, is difficult. That’s why the smart can’t pass for fools. Smart people win from others. On the other hand, fools win life. Blessed are the fools because they know without anyone suspecting. By the way, they don’t care if people know they know.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

There are places that make it easier for more people to be fools (not to be confused with stupid, with silly, with futile). Minas Gerais, for example, makes it easy to be a fool. Oh, how many people lose by not being born in Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

Fool is Chagall, which puts a cow in space, flying over the houses. It’s almost impossible to avoid the excess of love that a fool causes. It’s because only the fool is capable of an excess of love. And only love makes the fool.

Clarice Lispector

Reading: A Festa no Céu

Hello!
I’m excited to make my first reading suggestion here in the blog. I decided to start with something simple for beginners. It’s a short story about a party in the sky. “A Festa no Céu” is one of the most popular narratives of the Brazilian folklore filled with sayings and common expressions. I hope you enjoy it!

A FESTA NO CÉU

Entre todas as aves, espalhou-se a notícia de uma festa no Céu. Todas as aves compareceriam e começaram a fazer inveja aos animais e outros bichos da terra incapazes de voo. 

– Quem não tem pena não vai poder ir a ao Céu – berrava a Maritaca toda orgulhosa.

Imaginem quem foi dizer que ia também à festa… O Sapo-Boi, que não querendo ficar pra trás, tratou logo de dizer:

– Eu também vou.

A Maritaca ficou surpresa:

– Como?! Sapo não voa.

– E precisa?

– Como você é ignorante. Fala pelos cotovelos. Onde já se viu sapo voar?

Pois bem, o Sapo-Boi disse que tinha sido convidado e que ia sem dúvida nenhuma. 

– Sou convidado de honra do São Pedro. Ele me disse que não abre o portão do Céu enquanto eu não chegar.

Os bichos só faltaram morrer de rir e Maritaca, então, nem se fala. Disparou a falar mal do Sapo-Boi. Dizia que ele era pesado e nem sabia dar uma corrida, não seria capaz de aparecer naquelas alturas.

– Sua língua, Dona Maritaca, não é feita de aço, mas ela corta como uma navalha.

Para não ter que brigar com a Maritaca, o Sapo-Boi saiu de perto, resmungando pra si mesmo: “Essa Maritaca é como pernilongo, só cala o bico com um tapa”. O Sapo-Boi tinha seu plano. Estão rindo de mim, mas não perdem por esperar. Duas palavras abrem qualquer porta: puxe e empurre. Vou nesta festa nem que tenha que pregar penas por todo o corpo.

Tenho uma ideia: vou procurar o Urubu. Posso descolar uma carona. A esperteza é fazer isto com arte! Não há urubu que não cobiça uma boa carniça. Basta oferecer pra ele as carniças do brejo que ele me leva. São as pequenas coisas que fazem as grandes diferenças – assim foi pensando o Sapo-Boi.

Na véspera da Festa do Céu, procurou o Urubu e deu uma prosa boa divertindo muito o dono da casa. Prometeu mundos e fundos pro carniceiro. Depois disse:

– Você vai à Festa no Céu.

– Vou sim. Todas as aves foram convidadas. Se você fosse uma ave, teria sido também – disse o Urubu.

O Sapo-Boi que era muito vaidoso e orgulho até os cabelos e, só pra não dar o braço a torcer, completou: – Bom, camarada Urubu, quem é coxo parte cedo e eu vou indo, porque o caminho é comprido. Tenho que me apressar, ainda vou me arrumar para ir a Festa no Céu.

O Urubu também ficou surpreso:

– Você vai mesmo?

– Se vou? Claro!

– De que jeito?

– Indo – respondeu o Sapo-Boi com sua bocarra escancarada, todo confiante. – Até lá, camarada Urubu, sem falta! Em vez de sair da casa o Urubu, o Sapo-Boi deu um pulo pela janela do quarto do Urubu e, vendo a viola em cima da cama, meteu-se dentro dela, encolhendo-se todo, ajuntando bem as pernas longas. Ficou quietinho: “Aqui me ajeito. Vou ou não vou na Festa?! Sempre tem um chinelo velho para um pé cansado“. O urubu, mais tarde, pegou na viola, amarrou-a a tiracolo e bateu asas para o céu, vrru-rru-rrum… O Sapo-Boi ficou na sua, bem amoitado no fundo da viola. Chegando ao céu, o Urubu arriou a viola em um canto e foi procurar as outras aves pra prosear.

O Sapo-Boi botou um olhão de fora e, vendo que estava sozinho, ninguém pra xeretar, deu um pulo e ganhou a pista da Festa, todo satisfeito. Não queiram saber o espanto que as aves tiveram, vendo o sapo pulando no céu! 

Perguntaram e perguntaram curiosas:

– Como você chegou até aqui?

Mas o Sapo-Boi, esperto demais, só fazia conversa mole:

– Chegando, uai.

A Maritaca não acreditava no que via: tem carne escondida debaixo desse angu. Em terra de cego, quem tem um olho é rei, dois é deus e três é o diabo. Ainda descubro com esse bocudo veio parar aqui.

A festa começou e o sapo tomou parte se exibindo o tempo todo. Nem pro Urubu ele quis contar. Foi até arrogante:

– Eu não lhe disse que vinha? Cabra-macho não bebe água, masca fumo e engole a baba.

Pela madrugada, sabendo que só podia voltar do mesmo jeito da vinda, o Sapo-Boi foi-se esgueirando e correu para onde o Urubu havia deixado a viola. Encontrou a viola e acomodou-se, como da outra feita. O sol ia saindo, acabou-se a festa e os convidados foram voando, cada um para seu destino. O Urubu agarrou a sua viola e tocou-se para a terra, vrru-rru-rrum… Ia pelo meio do caminho, quando, numa curva, o sapo se mexeu e o urubu, espiando para dentro do instrumento, viu o bicho lá no escuro, todo curvado, feito uma bola. Só os enormes olhos brilhando.

– Ah! camarada sapo! É assim que você vai à festa no Céu?

– Uma carona não faz mal a ninguém – respondeu o Sapo-Boi, meio sem jeito. 

– Então foi desse jeito que você veio?

– Coác! Usando um pouco minha inteligência, né, camarada.

O Urubu achou o Sapo-Boi muito folgado e, além do mais, ele contou muito papo na festa. Fez-me de bobo. Se tivesse ao menos me contado. Merece um castigo – concluiu o Urubu.

– Vou te jogar lá embaixo – avisou pro Sapo-Boi.

– Cê tá louco?! – berrou o Sapo-Boi, escancarando o bocão.

O Urubu estava decidido em atirar o Sapo-Boi lá de cima.

– Pode escolher: quer cair no chão ou na água?

O Sapo-Boi desconfiou da proposta: conhecendo o urubu, ele vai me pirraçar. Boca de mel, coração de fel. Vai me jogar onde eu não escolher. Para quem está se afogando, jacaré é tronco. Cachorro mordido de cobra tem medo até de linguiça. Então, o Sapo-Boi querendo ser mais esperto que o Urubu, foi logo dizendo: 

– Me joga no chão mesmo.

Urubu ficou surpreso com o pedido. Este sapo deve ter pirado.

– Tem certeza que isso mesmo que você quer?

– Claro, camarada Urubu – completou o Sapo-Boi, resmungo pra si mesmo: “O destino não é uma questão de sorte, é uma questão de escolha.”

E, naquelas alturas, o Urubu emborcou a viola. O sapo despencou-se para baixo e veio zunindo. E rezava: – Coác! Se eu desta escapar, nunca mais boto as patas nas alturas! Nem 
converso demais. É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é tolo, do que falar e acabar com a dúvida.” E vendo as serras lá embaixo, berrou desesperado:

– Coác! Arreda pedras! E as pedras não arredaram. O Sapo-Boi então pode concluir antes de esborrachar nelas: “A esperança é um urubu pintado de verde”. 

Bateu em cima das pedras como um tomate maduro, esparramando-se todo. Ficou em pedaços.

Conta-se, lá pras bandas do brejo, que Nossa Senhora, com pena do infeliz sapo, juntou todos os pedaços do seu corpo esparramado nas pedras e o sapo viveu de novo. Aprendeu uma sábia lição: “Nosso verdadeiro inimigo está em nós mesmos. Não são os grandes planos que dão certo, são os pequenos detalhes. Não cuidei dos detalhes.” – Por isso o sapo tem o couro todo cheio de remendos. A primeira vítima da ignorância é o próprio ignorante – explica a Maritaca, sempre com certa maldade nos olhos esverdeados toda vez que conta essa história.